Beija-flor de lótus
11 set 2010 Deixe um comentário
em Prosa
Lembro-me que quando vi pela primeira vez uma montanha, a montanha era uma montanha, o rio era um rio, as árvores eram árvores. Vivia a inocência, estava fresco, captava a simplicidade, a vida era uma grande brincadeira, o riso imperava, a vida floria, tinha uma melodia, tinha dialogo, tinha integração com a minha alma, eu tinha alma, eu era alma, por isso a montanha continuava sendo uma montanha, o rio era um rio e as árvores eram árvores.
O contato com o mundo das pessoas foi se fazendo mais presente em minha vida, muito foi negado a mim, conceitos fui obrigado a aceitar, permite ser enganado e acreditei que tinha liberdade e tinha desde que aceitasse as imposições e o pior que eu fui levado acreditar que eu vivia a realidade, vivia a verdade, esta verdade era desbotada. Estudei, li muito, aprendi nos livros, tinha a minha carreira profissional, era respeitado, porque tinha dinheiro, casei com a mulher que eu achava ser ideal, minha alma gêmea, construí um castelo de areia a beira do mar, acreditava que isto era a vida, nada mais importava. A vida a todo instante batia a minha porta para despertar, mas dormia na cama que eu preparei.
Fui atrás das minhas experiências, tive coragem, me aventurei nas trilhas da vida, me afundei na lama, me deprimi, quase morri de amor, me desiludi com a vida, rompi com Deus e com a existência, me machuquei, quis desistir da vida. A montanha não era mais uma montanha, um rio não era mais um rio, as árvores não era mais árvores. A montanha, o rio e a árvores não mais existia.
Fui levado a esgotar as minhas forças e cai doente estressado de uma vida de mentiras e aparências. As forças estavam me deixando, não me importava mais ser aceito e ser amado, ilusão e desilusão, conflitos me arrasaram, senti derrotado, fracassado, me senti um perdedor de mim mesmo.
A existência teve grande compaixão comigo, ela sempre teve compaixão, mas eu estava cego, perdido no jogo de mim mesmo, um egoísmo que não me deixava ver, mas vi em uma tarde um beija-flor, engraçado que sempre tinha visto o beija-flor, apesar de achá-lo um pássaro de grande beleza, eu estava vendo de uma maneira diferente, estava atento, pela primeira vez estava atento depois de muito tempo, lágrimas verteram de meus olhos, lavando o meu coração. Percebi que o beija-flor estava fora de dimensão que conhecíamos, ele parava no ar com graciosidade e simplicidade, o beija-flor gasta muita energia com o bater de suas asas e representa a conhecimento ao provar de muitas flores, e quando chega a noite ele quase morre, para no outro dia renascer, ele trás alegria e a sua presença também trás a cura aos nossos corações.
A busca pela verdade me veio ao ver o beija-flor, antes acreditava que mais importante que a verdade, era ser feliz, mas felicidade neste mundo é passageiro, apenas momentos felizes é o que temos, ao contrario da verdade, por mais dura que seja ela no faz enxergar, nos liberta de toda ignorância, um remédio que no começo é amargo, mas depois não importa o gosto e sim a clareza de alma. Na minha busca pela existência a montanha não era mais uma montanha, o rio não era mais um rio e as árvores não eram mais a mesmas árvores, via de uma maneira diferente, meu olhar era mais calmo e colorido, começava escutar uma melodia interna e uma harmonia de tudo que me cercava, estava desaparecendo o bom e o ruim, o certo e o errado.
Na minha busca pela essência compreendi muito e quanto mais aprendia com o meu coração, mais me sentia aceito pela vida, e me vinha sempre a imagem da Flor de Lótus que nasce na lama, no lodo, no pântano, mesmo assim não se contamina, ela tem um perfume raro, suas cores são de uma transcendência poética, no simples pensar nesta flor, eu transcendia. A pureza e a presença de espírito me vinha, me tornando cada vez mais silencioso, a verdade não me é mais amarga, é doce, a vida é mais leve e o meu ser também se torna cada mais leve, insustentável em minha leveza.
Beija-flor me chamou – “OLHA”, olhei e a minha Flor de lótus que habita em meu coração floresceu.
Nasceu à simplicidade de ver que uma montanha sempre foi uma montanha, o rio sempre foi um rio e as árvores sempre foram árvores.
SOHAM
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